O que o Junho Roxo nos obriga a olhar de frente – Por Antonella | Gerontóloga | Grupo Villa
A violência contra pessoas idosas raramente começa com uma agressão física. Na maioria das vezes, ela surge de forma silenciosa: em uma decisão tomada sem consulta, em uma humilhação repetida que virou rotina, em um isolamento que vai acontecendo tão devagar que ninguém parece perceber — ou prefere não perceber.
Trabalho com envelhecimento há anos. E posso dizer com clareza: o que mais me preocupa não é a violência que chega aos notíciários. É aquela que acontece dentro de casa, entre pessoas que se amam — ou que deveriam se amar. A violência que tem o rosto de alguém familiar.
É justamente por isso que o Junho Roxo continua tão necessário. E tão urgente.

Respeitar o envelhecimento é garantir que cada pessoa continue sendo protagonista da sua própria história e das suas escolhas diárias.
Os números que não nos deixam desviar o olhar
Em 2025, pessoas idosas representaram aproximadamente 28% de todas as vítimas registradas pelo Disque 100, totalizando cerca de 172,4 mil ocorrências. A esmagadora maioria dos casos aconteceu dentro do ambiente doméstico. Os responsáveis? Em grande parte, familiares ou pessoas próximas da vítima.
Não é um dado abstrato. É uma realidade que bate à porta de famílias brasileiras todos os dias. E que, na maior parte das vezes, permanece em silêncio.
A gravidade do problema foi reconhecida pelo próprio Governo Federal, que em 2025 passou a dar prioridade específica às denúncias de violência contra pessoas idosas no Disque 100. Quando o Estado precisa criar uma fila preferencial para esse tipo de denúncia, é porque o problema chegou a um patamar que não pode mais ser tratado como pauta secundária.
A violência que não deixa marca visível – e é exatamente por isso que é tão perigosa
O aspecto mais preocupante da violência contra idosos é que a forma mais frequente dela não deixa hêmatomas. Ela aparece na rotina, nas palavras e até nas decisões tomadas sem que a pessoa idosa seja consultada.
Uma palavra dita de forma agressiva que se repete todo dia. A insistência em tratar alguém capaz como se fosse incapaz. O isolamento gradual de amigos e familiares. O controle sobre decisões mínimas da própria vida — o que comer, quando sair, com quem conversar.
Com o tempo, quem vive isso deixa de confiar na própria percepção. Começa a acreditar que realmente não tem mais valor. Perde o interesse pelo que antes dava prazer. Vai se apagando.
Do ponto de vista clínico, as consequências são sérias: depressão, ansíedade, perda de autonomia, e em alguns casos aceleração do declínio cognitivo. Não existe saúde física dissociada de saúde emocional — especialmente no envelhecimento. Quando falamos em cuidar de idosos, estamos falando também de preservar a autoestima, os vínculos e o sentimento de que ainda se pertence ao mundo.

A convivência e o estímulo são fundamentais para uma vida plena. Combater o isolamento é uma das formas mais eficazes de garantir a saúde emocional e cognitiva na terceira idade.
Violência financeira: o silêncio que protege o agressor
Há outro tipo de violência que raramente aparece nos relatos espontâneos e que, na minha experiência, é ainda mais subestimado: a violência financeira.
Aposentadorias usadas sem consentimento. Pressões para assinar documentos. Empréstimos contraídos em nome do idoso. Bens que ‘desaparecem’ da conversa familiar.
A maioria das vítimas não denuncia. Não por desconhecimento, mas por algo muito mais complexo: dependência emocional de quem pratica o abuso. Quando o agressor é um filho, um neto ou um cônjuge, denunciar parece uma traição. E essa lógica emocional é exatamente o que mantém tantos casos invisíveis.
O que cada um de nós pode fazer agora
Combater a violência contra idosos não é tarefa exclusiva das autoridades. Essa é uma responsabilidade que começa muito antes — nas famílias, nos ambientes de trabalho, nas instituições de saúde e, honestamente, em qualquer lugar onde exista uma pessoa idosa.
Prestar atenção a mudanças de comportamento. Notar quando alguém deixa de aparecer, de responder, de participar. Perguntar, sem julgamento. Criar condições para que a pessoa se sinta segura o suficiente para falar.
No Grupo Villa, esse olhar faz parte da rotina. Não porque é protocolo — mas porque entendemos que cuidar de uma pessoa idosa é cuidar da sua história, da sua autonomia e da sua dignidade. O acompanhamento profissional, o estímulo à convivência e o respeito à individualidade não são diferenciais. São o mínimo.
“Envelhecer com segurança não significa apenas estar protegido de doenças. Significa sentir-se respeitado, ouvido e valorizado todos os dias.“

Cuidar é estar presente. Notar mudanças, oferecer a mão e criar um espaço seguro para que a história de cada idoso seja respeitada e valorizada.
O Junho Roxo não é um mês de campanha. É um espelho.
Ele nos força a olhar para algo que preferimos ignorar: que a sociedade brasileira ainda trata o envelhecimento como um peso, e não como uma fase da vida que merece investimento, cuidado e respeito.
Respeito, acolhimento e dignidade não têm prazo de validade. E toda pessoa merece viver essa etapa cercada de cuidado, autonomia e afeto — não apesar da idade, mas plenamente por causa de tudo que ela representa.

“Envelhecer com segurança é, acima de tudo, sentir-se respeitado, ouvido e valorizado em cada etapa da vida.”
Se você presenciar ou suspeitar de qualquer situação de violência contra um idoso, não ignore os sinais. Denúncias podem ser feitas gratuitamente pelo Disque 100 — canal nacional de defesa dos direitos humanos. Denunciar é um ato de proteção. E é também uma forma de respeito.
Conheça o cuidado que vai além. Conheça o Grupo Villa.